Consentir


Deixe-me viajar sozinho e cumprimentar meu passado como a um velho amigo. Sorrir das inquietudes que vivi e perceber que elas se foram quando minha coragem de seguir, cortou do meu rosto o espanto imposto pelas circunstâncias. Apenas permita-me: perder, errar, chorar e cravar, nos próximos passos, o continuar andando, apesar do mundo que, em quietude, molda-se ao barulho que carrego aqui dentro.

Deixe-me dançar, vago e sem propósito algum. Desengonçado como fui feito, mas feliz enquanto me mexo. Mesmo que a sombra seja meu par e ainda que ao som dos meus porquês, deixe-me perceber o quanto sou bom em não ser. O quanto sou grato em me encontrar, perdido, praticando meu sorriso em um propósito sem par.

Apenas deixe-me, caricato e previsível, ser surpresa e abstração no meio dos que amo. E de quadro em quadro, dê-me permissão para pintar um fio das coisas nas quais creio, ou viver o meio como uma cor que preenche o espelho, dentro ou fora de contexto, refletindo na paisagem o melhor que consigo ser.

Deixe-me abraçar, beijar, sussurrar e cantar enquanto converso com meus sonhos, diante de quem me provoca tempo e que, com assuntos aleatórios, evapora minhas alucinações e me costura de volta na vontade de amar. E, falando nisso, deixe-me amar. Ser um homem que carrega em si o repouso dos outros e, como um galho, permita descanso àqueles que param antes de voltar a voar.

Permita-me ser como preciso, muito antes de estar como quero. Apagar antes de escrever e dizer, com verdade, antes de silenciar novamente. E para cada consentimento desses, em outros tantos, deixe-me entender que não existe vazio maior do que caminhar sem o consigo (verbo ou pronome). Só então, deixe-me ser o perdão de tudo que me culpo, para que, no exercício pleno da vida, eu perdoe quem quer que seja. E assim, com liberdade e entusiasmo, que eu me deixe e, deixe-me ser feliz.


(Halifas Quaresma)

Comentários

  1. Até porque silêncio é quando só faz barulho dentro da gente, não é Halifas?

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    1. É exatamente isso minha Alice, o silêncio que a gente consegue ouvir é quando está tudo quieto por dentro.

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  2. Que lindo Halifas, sempre que passo aqui me sinto mais poética.
    Abraços com saudade!

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