10 de mai de 2016

Chama















Se com todos os meus medos
uma chama em mim sorrisse,
enxergaria meu caminho
e a coragem que nele existe.

                                         
                                             (Halifas Quaresma)



11 de out de 2015

Um céu de estrelas















Naquele susto
vi que em teu sorriso
mora o eco das estrelas.
E aqui
tão diante da tua alegria
posso dizer que na vida,
frágil como uma ferida,
ousei tocar o céu.

                           (Halifas Quaresma)

31 de dez de 2014

Novo















De fato um ano que parou em minha linha, mas jamais acreditarei que qualquer coisa que tenha acontecido tenha sido em vão. Eu sei, amigos. O feed de notícias de vocês está calejado de mensagens, por isso mesmo aqui vai a minha inesperada e trágica contribuição para os votos, já que uma a mais ou a menos não fará diferença.

O ano de 2014, pra mim, começou ainda no final de 2013, especificamente no natal, quando subitamente entendi que não viria coisa boa por aí. E óbvio, eu estava certo. Ando muito longe de pressentir coisas, mas a vida manda pistas meio óbvias ás vezes, minha sorte é percebê-las e decifrá-las, embora jamais encontre solução.

E logo se deu início uma longa jornada. Um grande desnível no início, uma longa caminhada até o meio, uma escalada ao pico de emoções e um desmoronamento básico até o chão plano e verde da realidade. Desde então, uma estranha calmaria e uma paz indecifrável avisam: estamos no fim.

Alguns amigos - com razão, diga-se - me questionam o por quê de eu ainda não ter escrito nada sobre o natal ou o ano novo, como costumo fazer. A resposta inexiste, mas eu arrisco um palpite. Estou zerado, completamente esgotado. Esse tal ciclo da vida, onde as mudanças escrevem reinícios mais uma vez me pegou e dessa vez, veio como uma razão inquestionável.
Eu sempre tive essa consciência de que para se iniciar algo completamente novo em minha vida, alguma parte dela deveria ser zerada e encontrar alguma gaveta vazia no armário das lembranças, ou nem isso.

É o que sinto por esta virada de ano. Na verdade, o que me sobra sentir. Que o 2015 no qual deposito minhas atitudes futuras será um ano quase que inteiramente focado nessa transição. Minha caverna ficou pequena demais para meus sonhos e meus desejos. Nela não cabem nem mesmo minhas emoções.

Eu não faço promessas, nem rituais nessa época do ano, acho muita pretensão pra pouco conhecimento sobre o amanhã.

Eu simplesmente oro, sem vergonha ou medo. E minha oração dessa vez é para que eu simplesmente seja capaz. Capaz de dar um sorriso sincero, que seja, sem esperar que a felicidade seja plena e duradoura. Capaz de chorar no íntimo do meu quarto as dores que não cabem em mim e assim, ofuscar as fraquezas do mundo para que  aqueles que se aproximarem de mim encontrem esperança e força para continuar.

Que eu seja capaz de amar, mesmo que não haja motivos. Mesmo que as virtudes sejam esmurradas e o caráter esquecido, que eu seja capaz de perdoar. Que a minha sombra só apareça à contraluz e que nessa luz, eu seja capaz de me inspirar. Que eu seja capaz de seguir em frente diante dos absurdos imprevistos e que no medo, na angústia e na solidão, nas várias faces que o cotidiano reservar, que eu seja capaz de manter minha fé inabalável.
Amém!


                                                                                             (Halifas Quaresma)




15 de dez de 2014

Um sorriso



















Em teu sorriso
vi que a ternura tem forma,
que a graça é um sopro,
o zelo dura alguns motivos
e que às vezes,
nesse hábito vivo,
o medo já não perece
mas passa a desenhar sentidos.


                                          (Halifas Quaresma)

30 de out de 2014

Único alívio















Foto: Lourenço



Teus desejos tão humanos
cabem todos nesses olhos.
Círculos pequenos de pureza e loucura
Grades sinceras de onde se jogam tuas lágrimas
Nossas vozes defrontadas
nossos risos repousados.
Ter do teu peito sincero
esse silêncio armado de gritos.
É nesse enlaço que te converso,
que meu corpo te responde
É onde mostro que o refúgio
te faz pairar na ponta dos pés
E o que se quebra na paisagem alheia
junta todos os caminhos num único abraço.



                                                     (Halifas Quaresma)

21 de out de 2014

Da janela










Foto: Margarida TT





O que flui desse sossego?
Uma paz à beira da janela
batendo suas asas
ao mundo que gira ao redor dela.
E firmo um sincero pacto com o dia:
Que as horas passem,
que o vento siga,
mas que eu,
apesar do medo,
enxergue a vida
e voe livre,
cortando o tempo.

                            (Halifas Quaresma)

Precipício















Um abismo profundo,
no centro de tudo,
batizado de olhar.
Por entre os dedos,
um precipício perfeito
onde esqueço do tempo
e aprendo a sonhar.

                        
                              (Halifas Quaresma)

24 de ago de 2014

Colcha de Retalhos











Foto: Leda Nardelli





Todos os argumentos falhos contra a vida são uma aula de como não reagir no momento de uma discussão com ela. O propósito de expor ideias e impor uma atitude não funciona muito bem quando do outro lado você é metralhado por si mesmo, por todas as suas escolhas e por todas as suas dúvidas e desastres.
Você é sempre derrotado por aquilo que deveria ter feito ou não ter feito. Ou pior, é pisoteado pela verdade dos fatos que você insiste em negar. O que sobra é sempre um novo pedaço de pano para remendar seu caminho.
Tantas ilusões disfarçadas de glória para no fim você perceber que sua insignificância é um ponto comum que te transforma em um ser tão evoluído quanto uma formiga, mas necessário enquanto houver esperança na sua capacidade humana.
Entender todo esse diálogo que constantemente temos com nosso reflexo não ajuda muito quando voltamos para os mesmos pensamentos sem respiração no final do dia. As pequenas conquistas que temos e vivemos são devoradas pelo esforço que nos afoga na mesmice das lutas injustas que travamos.
Talvez o melhor a fazer ao discutir com a vida seja voltar ao ponto da insignificância. Convenhamos que encará-la com os olhos marejados já é muito mais do que podemos. Manter-se diante de todos os sonhos vendo que eles escapam com a rapidez dos ponteiros também exige níveis bem maiores de dedicação.
Nesse momento dialogar começa a ficar mais fácil do que esconder-se e fingir que sua mente é um celeiro de paz e tranquilidade. Tornar-se mínimo e reconhecer ser pequeno não tem relação nenhuma com derrota ou fracasso. Pelo contrário, isso é reconhecer que diante de todos os abismos e de toda a lama que se juntou em alguns pontos da sua linha você se enche de respeito pelos retalhos que te fizeram chegar até esse dado momento.
Não é tão difícil entender que ser pequeno diante da vida é estar pronto para a grandeza de qualquer coisa que esteja gritando aos ouvidos do por vir. Que sejam lutas ou alegrias, mas que sejam todas costuradas no agora que nos fortalece para os sonhos que não se rendem aos sopros do cansaço.
No fim, discutir com a vida é não ter argumentos contra si mesmo e perceber que em algum instante você irá entendê-la e finalmente passar para a próxima pauta, dessa vez com um pouco menos de medo e um pouquinho mais de verdade. Afinal, uma colcha de retalhos aquece muito mais do que qualquer lençol velho e desbotado que perde sua cor e se destrói em uso.


                                                              (Halifas Quaresma)

28 de dez de 2013

Desamarre-se














Foto: Paula Alface





É difícil simplesmente olhar para as coisas que se escondiam na palma da mão e que agora se despedem por qualquer motivo temporal. Conceitos, rotinas, cheiros, sentidos, surpresas. Tudo que se desliga de alguma maneira da sua vida deixa sua língua vazia, sem nada a declarar. Não é tão fácil dizer adeus e permitir que os planos se dissolvam no vento como se nunca tivessem existido. Como imaginar lugares sem a mesma companhia, ou momentos sem as mesmas alegrias? Como se desvincular de algo que, instintivamente, passou a te fazer levantar da cama todos os dias com um motivo para ser?

O nível de vida que temos é a soma de tudo que dança ao nosso redor. Sim, a vida dança ao nosso redor. Ela esfrega na nossa cara os seus rodopios e gargalhadas. Nós é que só enxergamos quando convém.

As coisas vêm e vão de uma maneira muito individual. Não se pode medir o quão intenso será um sentimento ou o quão indiferente seremos a ele. Só se vive o suficiente para chegar ao final da vida e perceber que aprendeu pouco e se preocupou demais. Os nossos dias são como uma esponja nova, que é usada e reutilizada até ficar murcha e cheia de histórias. Nós absorvemos e cuspimos de tudo um pouco, mas algo sempre fica e firma residência em nossa alma. Essa soma das coisas que ficam molda o caráter, a personalidade, a vitalidade, a disponibilidade, a vaidade. Tudo muito bem misturado e pintado no rosto.

Importa tanto assim o que se vai? Afinal o que tinha de ficar já está onde deveria estar. O que realmente importa se aquieta em qualquer lugar que caiba. O apego às vezes é só uma carência disfarçada de costume. É medo de mudar. De caminhar novamente pelo mesmo caminho e, dessa vez, perceber que existe uma paisagem em volta.

Não é necessário agarrar-se a essa segurança tola que nasceu de um cotidiano imutável. Cada passo desenhado na areia, pelo vento ou pelo mar, se apaga grão a grão. Mas existem quilômetros incontáveis de praia para se percorrer ainda.

Se não era tão fundamental, apenas solte e deixe que exista em outro lugar. Desamarre-se e empurre-se de si mesmo. E ao se virar, terá esbarrado no amanhã.



                                                                                       (Halifas Quaresma)

9 de dez de 2013

De um caminho











Foto: Pernes



Uma confusão de estrelas nos teus olhos
Fez que ia me distrair do resto do mundo.
E no que meu único mapa era você,
Um labirinto chamado sorriso
Cuidou de mostrar o caminho do beijo

                                       
                                              (Halifas Quaresma)