19 de ago de 2010

Das Cartas













 

Sabe as cartas que erroneamente joguei no mar? Se foram. Perderam-se entre o sal e a cor azul. Foram divididas ao meio verbo a verbo. E no meio do tempo, esquartejadas em cada frase. Não tinham no gosto algo que pudesse se misturar às virtudes da vida. Carregavam apenas algumas poucas palavras que com o tempo foram preenchendo as linhas imaginárias de um papel em banco.
Eu coloquei ali muito do que minha carne viveu. Algumas correntes que não pude quebrar e que ainda arrasto pelo espaço quadrado do meu quarto. Eram mesmo confissões. Asilos para velhos pensamentos. Agora se foram. Estão fazendo companhia pra qualquer que seja o animal que se alimente de tinta.
Quando derramei pétala por pétala, o mar foi abraçando partes incontáveis de minha existência. Joguei sem piedade alguma a parte que falava das lágrimas. E junto com ela, dissolveu-se o momento das angústias, dos pesadelos.
Despi-me de todas as fardas. Calei-me diante do som que meu passado fazia ao assistir aquele circo.
Não é que eu seja cruel com meus sentimentos, pelo contrário, os guardo como horas valiosas. Mas me machucava saber que eu ainda iria precisar de espaços maiores para escrever. E minha maior preocupação, não era a maneira como o remetente se comportava diante dos dizeres. Era que mesmo tendo tanto o que falar, as cartas continuavam sem rumo, sem sentido, à deriva... Sem destinatário.

                                                                                      (Halifas Quaresma)


2 comentários:

  1. *.* Torna-se eterno esse grande poeta, suas palavras dobraram o tempo… ~)
    mt bons...

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  2. Obrigado linda...te adoro..^^

    Beijos.

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