Pequena síndrome de inexistência

















Esqueceram-se da chama que outrora ardia o pudor disfarçado em covardia. Apagaram a ultima lágrima que, úmida, ainda se privava de misturar-se ao ar. Insistindo firme em permanecer agrupando as lembranças, daquilo que um dia acreditou-se com o corpo e a vida.
Foram-se todos os desejos. Todos os princípios. Toda a inquietude que fazia dançar a alma trêmula, daqueles que ainda acreditavam no sangue que, espalhado chão a chão, foi desperdiçado como vinho aos chacais famintos, do admirável mundo moderno.
Pouco se viveu do amor quando ele habitou entre todos. Ama-se menos ainda, agora que quase inexiste nessa carcaça fria, que muitos denominam corpo. E os poucos grãos de vontade que ainda sobrevivem, dentre a terra estéril que se multiplica inútil quilômetros adentro, são convertidos a loucos passíveis de arrogância, desprezo e indiferença.
Arca-se com os efeitos de se acreditar em algo que pouco se conhece. O preço de deixar-se apedrejar por todas as multidões.
Há os que não suportam os poucos olhos que acreditam em milagres. Ao mesmo tempo em que admiram os desenhos mágicos cicatrizados nas asas de uma borboleta. Tentam catalogar hipócritas, em um mundo onde tudo é hipocrisia. E escarram no rosto de alguém que acredita que de Um par de mãos nasceu tudo que respira. Que no íntimo de cada, foram soprados, com apenas um fôlego, tudo que nos torna capazes de ser. Tudo que nos apresenta á viva arte de sonhar.
Mas o desespero nunca me deu o prazer de sua companhia na mesa de jantar.
Por que, mesmo que tudo se vá. Mesmo que tudo seja apagado num simples ato humano. E mesmo que o mundo se enfureça diante de mim e se torne gélido como um dia fui. Ainda existirá espaço para se levantar. Pois mesmo que por mil vezes eu morra em tudo que sou e seja enterrado em tudo que acredito, terei nos ponteiros, contados três dias, a hora exata de ver todos os meus sonhos acordados.
Mas sinto informar. Isso é só para quem acredita em alguém com experiência suficiente para ressuscitar algo.

                                                     ( Halifas Quaresma)

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