Doses de Vôo
















Os pássaros arrastavam-se pelo ar janela afora. Deslizavam pelos sopros do mundo como se não houvesse motivos para olhar para trás. E planavam na invasão das nuvens. Desenhando sonhos e pulverizando liberdade aos que babavam torpes, invejando a vida sem rotinas que gozavam as aves.
Dançando com o vento. Pontuando passo a passo a coreografia ensaiada do viver. O mundo parece ser a eternidade de um infinito impermeável. Onde o cortar das asas no prazer dos sentimentos e das sensações, parece uma obrigação inadiável e preferencialmente imediata. Mesmo que os riscos de uma queda sem volta sejam óbvios o bastante para garantir os pés no chão.
Quais dos muros que nascem todos os dias ousam acusarem-se obstáculos para os que voam? Tornam-se, todavia, pausa para descanso. Um simples lugar onde se planeja a próxima paisagem. E arrastar-se no chão, enraizados pelo nítido e pelo perceptível, tona-se a realidade que nos assombra os ossos. De maneira tal, que aceitamos o desconfortável momento que nos dopa em timidez e ausências.
Ao menos uma vez, evitando o fingir, pode-se acreditar que é importante importar-se. Ou ao menos preocupar-se. Não por pena ou avidez. Mas por desejo e impaciência. Que as coisas ao lado façam parte do prisma que se esconde nos olhos. Separando as cores e as luzes que tocam o rosto. Por que da cobiça fria de um vôo ergue-se o calor de abrir as asas e tomar por impulso aquilo que, asperamente, te ordena a desprezar o comodismo e a insatisfação.
E quando os músculos finalmente desunirem-se e as penas flutuarem seu corpo pelos pobres moribundos que rastejam nas promessas da iniqüidade e nas barbáries humanas, será o céu o próximo passo. E dali em diante viva-se em utopia até que isso devore as algemas do ego e o abismo em volta. E aquele que observava em coma os sonhos livres que eram desenhados janela afora, agora será visto por outros. E de igual modo, a cobiçada liberdade, lacrimejada no íntimo de cada palavra e de cada vontade. E depois de abraçada pelo chão, brotar-se-á em vida. E será colhida. Mais uma vez, escolhida.


                                                                                (Halifas Quaresma)

Comentários

  1. Aaaah, que doce! Que livre... como eu preciso de gotas disso, meu Deus! (Suspiros!!!^^)

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  2. Este seu texto é um mergulho no céu Halifas!


    E quando os músculos finalmente desunirem-se e as penas flutuarem seu corpo pelos pobres moribundos que rastejam nas promessas da iniqüidade e nas barbáries humanas, será o céu o próximo passo.

    Lindo *__*

    Beijos!

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  3. Oi Halifas (teu nome é diferente e bonito!)

    Teu texto é de um voo tão realista, tão bonito.
    Tua poesia aprendi a admirar, você talentoso e sensível, gosto muito disso.

    Beijo meu

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