Aos Anjos
Escrever me vem como um dom. Mas às vezes tenho como necessidade. Expulsar da alma tudo que sufoca os músculos do coração e talvez deixar fluir no sangue algo que se confunda com o resto de vida que sobra em meio a tanta sujeira. Será que é tão óbvio ou tão comum poesia ser da língua inimiga e dos dedos uma amante? Salivar palavras na mente e deixar que, úmidas, façam sua parte como alimento da alma, é de fato rotina entre poetas. Mas não me encaixo em tal pretensão. Não me castigo por mera decadência existencial. É apenas vontade de submeter os gritos ao espaço que lhes reservo imunes dentro do peito, evitando que evidenciem aquilo que deve permanecer livre dentro da carne. Minuto a minuto me escorrego nos vultos das canções e me pego andarilho em caminhos sem volta. Essa é a sina de quem permite escravizar-se em linhas, purificar-se em versos. Tenho medo do que me reserva o eco. A continuid...

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