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Consentir
Deixe-me viajar sozinho e cumprimentar meu passado como a um velho amigo. Sorrir das inquietudes que vivi e perceber que elas se foram quando minha coragem de seguir, cortou do meu rosto o espanto imposto pelas circunstâncias. Apenas permita-me: perder, errar, chorar e cravar, nos próximos passos, o continuar andando, apesar do mundo que, em quietude, molda-se ao barulho que carrego aqui dentro. Deixe-me dançar, vago e sem propósito algum. Desengonçado como fui feito, mas feliz enquanto me mexo. Mesmo que a sombra seja meu par e ainda que ao som dos meus porquês, deixe-me perceber o quanto sou bom em não ser. O quanto sou grato em me encontrar, perdido, praticando meu sorriso em um propósito sem par. Apenas deixe-me, caricato e previsível, ser surpresa e abstração no meio dos que amo. E de quadro em quadro, dê-me permissão para pintar um fio das coisas nas quais creio, ou viver o meio como uma cor que preenche o espelho, dentro ou fora de contexto, refletindo na paisagem o me...
Aos Anjos
Escrever me vem como um dom. Mas às vezes tenho como necessidade. Expulsar da alma tudo que sufoca os músculos do coração e talvez deixar fluir no sangue algo que se confunda com o resto de vida que sobra em meio a tanta sujeira. Será que é tão óbvio ou tão comum poesia ser da língua inimiga e dos dedos uma amante? Salivar palavras na mente e deixar que, úmidas, façam sua parte como alimento da alma, é de fato rotina entre poetas. Mas não me encaixo em tal pretensão. Não me castigo por mera decadência existencial. É apenas vontade de submeter os gritos ao espaço que lhes reservo imunes dentro do peito, evitando que evidenciem aquilo que deve permanecer livre dentro da carne. Minuto a minuto me escorrego nos vultos das canções e me pego andarilho em caminhos sem volta. Essa é a sina de quem permite escravizar-se em linhas, purificar-se em versos. Tenho medo do que me reserva o eco. A continuid...

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